Gonçalo Anes Bandarra
 

          

            Referindo-se a esta figura de Portugal, Fernando Pessoa afirmou: O verdadeiro patrono do nosso país é esse sapateiro Bandarra. Abandonemos Fátima por Trancoso. (...) O Bandarra, símbolo eterno do que o povo pensa de Portugal (...) O Futuro de Portugal – que não calculo mas sei – está escrito já, para quem saiba lê-lo, nas trovas do Bandarra.
Em Trancoso nasceu este homem simples, num ano qualquer da graça de Nosso Senhor, presumindo-se nos inícios do séc. XVI ou mesmo em 1500. De seu nome Gonçalo Anes, Bandarra por alcunha, não era sujeito despido de letras e teria nascido em berço rico ou provavelmente remediado. Perdida a fortuna em ignotas empreitadas (de que a alcunha é evidência), para acudir à sua pobreza tomou o ofício de sapateiro de correia, o que quer dizer que fabricava calçado e o remendava quando solicitado.
Da figura deste “Nostradamus” português, possuímos uma gravura do séc. XVII, publicada na primeira edição de 1603, desenhada por autor desconhecido para o rosto da
primeira edição levada ao prelo por D. João de Castro. Conhece-se a assinatura do profeta nos autos do Santo Ofício e por esta finada instituição de martírio todos os passos do sapateiro entre 1538 e 1541. Resta-nos a materialidade do túmulo embutido numa das paredes da igreja de São Pedro, na vila de Trancoso, no qual se encontra lavrada a existência do depositado e o suposto ano da sua morte, que ele próprio não teria previsto.
Instruiu-se o padre Bartolomeu Rodrigues e doutor Álvaro Cardoso e com uma Bíblia do escudeiro João da Cruz.
Em 1531, já conhecido como áugure e poeta, surgiu em Lisboa, onde se aboletou em casa de um livreiro judeu, de nome João de Bilbis. Nessa passagem a sua fama ia adquirindo perplexidades entre os judeus ou cristãos-novos. Seis anos depois, o manuscrito foi copiado por Heitor Lopes, tosador em Trancoso.
No ano de 1538, de novo em Lisboa, as cópias surgiam já por toda a parte. Na capital, a população judaica alvoroçava-se com a vinda do Messias e, à sua maneira, interpretava as coplas do profeta. A obra tornou-se um deslumbramento e um alvoroço se formou no País, de tal modo que desencantou os ouvidos, sempre atentos, da Inquisição e ia tornar-se uma dor de cabeça para o autor. Acusavam-no, entre outras coisas, de “ser amigo de novidades e com elas causar alvoroço em cristãos-novos”.
Assim foi que um tal Afonso de Medina, comissário do Santo Ofício, achou que as profecias alvoroçavam muita gente. Em consequência, Bandarra era preso em Trancoso e remetido para as casas do despacho da Santa Inquisição, em Lisboa, onde ficou preso. Durante o processo e os interrogatórios não ficou provada a ascendência judaica do sapateiro profeta (e porventura não a teria mesmo). Entrou, pois, como era de etiqueta, na procissão de um auto de fé, celebrado em Lisboa nos paços reais da Ribeira, a 23 de Outubro de 1541.
No auto que lhe foi lido, estando ele a penitenciar-se em pé com círio amarelo em punho, a determinado passo ficou a proibição: “que daqui por diante se não entremeta mais a responder nem escrever em nenhuma cousa da Sagrada Escritura, nem tenha nenhuns livros da mesma...”
Com a sua veia profética, Bandarra não conseguiu receber, para além de uma boa carga de dissabores, um único tostão. Regressou o pobre Gonçalo Anes Bandarra a Trancoso, onde se agasalhou até à morte, a qual terá ocorrido em 1545, por tal data ter sido mandada lavrar, por D. Álvaro de Abranches, no seu túmulo, do lado da Epístola, na igreja de São Pedro. Lá podem ler:
“Aqui jaz Gonçaliannes Bandarra natural desta Vila que profetizou a restauração deste Reino, e que havia de ser no ano de seiscentos e quarenta por el-rei D. João o quarto nosso Senhor, que hoje reina, faleceu na era de mil e quinhentos, e quarenta e cinco. Esta sepultura mandou fazer D. Álvaro de Abranches sendo general da província da Beira, e se acabou governando nela as armas João de Saldanha de Sousa a vinte e oito de Fevereiro de mil seiscentos e quarenta e dois”.
Morreu pobre ( se é que algum dia tinha sido rico), sustentado, segundo a tradição, por duas filhas e, possivelmente, por uma companheira, da qual não reza a História.
É um Bandarra de barba branca, sorumbático e compenetrado, que se afigura na gravura “oficializada”. Esta gravura, da edição de 1603 e estampada neste livro, teria sido encomendada por D. João de Castro a um anónimo gravador de Paris, o qual não viu mais gordo o profeta de Trancoso. Por outra via, não se sabe se circulavam ao tempo algumas gravuras com o rosto do sapateiro, donde uma destas ter provavelmente servido de fonte para o gravador parisiense. Que existia gravura, não se duvide. Se não, como justificar a utilização de um retrato do Bandarra na Sé de Lisboa aquando da aclamação de D. João IV?
Crítico de costumes, parece ter sentido Bandarra, segundo o prólogo de uma das edições, as “maldades do Mundo e particularmente as de Portugal”. Malhou na situação caótica e imoral da igreja em duas coplas, na magistratura e nos magistrados noutras tantas, na ausência de “um chefe que mande” e nos males de Portugal que, indiscutivelmente, se justificaram então e se consolidam hoje neste resquício de sabedoria visionária:


Sou sapateiro, mas nobre
Com bem pouco cabedal;
E tu, triste Portugal,
Quanto mais rico, mais pobre


Em 1758 foi mandada picar esta inscrição, não tanto que hoje não se consiga ler.
Sabemos que Bandarra profetizou em termos bíblicos o Quinto Império, dentro de uma interpretação do Padre António Vieira e do grande poeta Fernando Pessoa, que o leram, admiraram e comentaram. O padre Vieira, porém, viria a escrever: “Bandarra foi verdadeiro profeta, pois profetizou e escreveu tantos anos antes tantas cousas, tão exactas, tão miúdas e tão particulares, que vimos todos cumpridas com os nossos olhos”.
Muitas das suas profecias concretizaram-se após a morte deste grande profeta. Uma delas, porém, diz respeito ao próprio, judiciosa e relevante como a reconhecemos hoje:


Em dois sítios me achareis,
Por desgraça ou por ventura:
Os ossos na sepultura,
A alma, nestes papéis.


 

Santos Costa