Contos populares
 


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AS ORELHAS DO PADRE

Um caçador lá da terra convidou o padre para com ele comer duas perdizes que tinha caçado nesse dia. Para isso, deu as duas perdizes à mulher para as cozinhar. Esta, por saber que, para além do trabalho, não era tida nem achada para a refeição do pitéu, comeu as duas perdizes antes de os dois aparecerem. Mal viu o padre chegar à porta, chegou-se ao pé dele com ar alamado e disse:

- Fuja, senhor padre, pois o meu homem quer apanhá-lo à mesa para se vingar duma parte que lhe fez. Jurou cortar-lhe as duas orelhas!

O padre saiu a correr. Ora, pouco depois, chegou o dono da casa e ouviu da boca da mulher que o padre já tinha vindo, que viu as duas perdizes e foi-se com elas para as comer sozinho. Ouvido isto, o homem correu para fora e, vendo o padre ao longe, pediu-lhe que lhe deixasse ao menos uma, referindo-se às perdizes. Ao que o padre, cada vez a correr mais lhe gritou, referindo-se às orelhas:

- Nem uma nem duas!

O IDIOTA

Um idiota chapado decidiu comprar um jumento e uma albarda para ele (jumento), a qual foi colocada no dorso do dito. Tratou de montar o jumento e, mal chegado a casa, reparou que a albarda tinha causado uma ferida no lombo do bicho.

Disposto a vingar-se, o idiota deitou a albarda para dentro de um tanque cheio de água, mas a albarda (que era nova) não ia ao fundo. Ainda mais raivoso, o idiota deu fogo a um forno de lenha e lançou para dentro a albarda. Ora, visto esta encontrar-se molhada e o lume ateado no forno estar no princípio, não ardia. Tirou então do forno a albarda e foi até à varanda mais alta da casa e dela a lançou.

Resultado: como o idiota tinha os atafais da albarda presos ao corpo, acabou por se despanhar juntamente com a odiada causadora das suas arrelias, morrendo como um idiota.
O ESTUDANTE

Havia um estudante - daqueles que pouca ou nenhuma coisa estudam- que entrou de férias e regressou à casa dos pais. Para mostrar os seus conhecimentos, ao jantar pôs-se a demosntrar que dois eram iguais a três, naquela filosofia de que é fértil a matemática. Ora, os pais, que eram pobres, apenas tinham dois ovos para o jantar e o progenitor, ouvindo com atenção as razões do filho, pegou nos dois ovos, entregou um à mulher e, ficando com o outro, disse para o académico:

- Como dois são iguais a três, a tua mãe como um ovo, eu como o outro e tu, meu sábio, contenta-te com o terceiro.
A HERANÇA DO CEGO

Havia um cego que vivia da pedincha e, à custa da caridade alheia, conseguiu juntar grossa maquia. Para evitar ser roubado, meteu todo o dinheiro dentro de uma panela velha e foi enterrá-la no quintal ao pé de uma figueira. Fixou o lugar de memória, de tal sorte que, mal juntava nova maquia, lá ia depositar em tão bem acomodado esconderijo. Em uma das vezes que fez a operação de desenterrar e enterrar a panela, foi visto por um vizinho, o qual, pelo sim pelo não, espreitou a ocasião propícia para desenterrar o tesouro do cego e ficar com ele. Quando o cego deu por falta da panela calculou que ela tinha “voado” para mãos que o tinham espiado. Daí ter-se mantido calado à espera de encontrar ocasião para apanhar o larápio. Mas desde logo deitou as culpas para cima do vizinho. Por isso, foi a casa dele e disse:

-- Ó meu rico vizinho – começou o astuto cego pedinchão – eu ando fraco e doente e sinto que, mais dia menos dia, a morte bate-me à porta. Por via disso, o melhor é contar-lhe um segredo, para que não se perca tudo. É claro, se vossemecê não espalhar o segredo por aí…

-- Pode contar, vizinho. A minha boca ficará tão fechada como a luz nos seus olhos.

-- Sendo assim, sempre lhe digo que, não tendo parentes próximos ou afastados, quero fazer de si meu herdeiro. Saiba que tenho uma panela com moedas enterrada ao pé da figueira e quero que ela fique para si. Até morrer, ainda penso lá deixar mais moedas de modo a que a encha até às bordas. Tenho escondido mais dinheiro noutro sítio e quero juntá-lo todo ali.

Ditado o “testamento”, o cego deixou o vizinho a cogitar como ampliar o tesouro, uma vez que estava garantido. Para assim ser, foi nessa noite junto da figueira e colocou a panela com o dinheiro no mesmo sítio onde a deixara. Pela manhã, lá foi o cego ao sítio e, como calculara, já se encontrava lá o tesouro. Levou-a para casa e, não contente com ter recuperado o dinheiro, saltou porta fora a gritar:

-- Ó vizinho! Acuda! Acuda, que me roubaram o dinheiro!

-- Que dinheiro? – inquiriu, com o coração aos pulos, o vizinho.

-- Roubaram-me o dinheiro que tinha escondido na figueira. Visto isto, vossemecê não vai herdar nada.

Voltou para casa e tratou de esconder o resultado da pedincha longe de vistas indiscretas.

Santos Costa